A vida dos outros
27/05/2010 16:49
Existem coisas especialmente chatas em dias de chuva. Para muitos, o simples fato de não poderem ficar em casa já é uma delas. Há que se considerar também que determinados entraves realmente podem piorar um dia com água caindo do céu e subindo das poças: paradas de ônibus, congestionamento, moedas, revistas embaixo do braço, bagagem de mão. Porém, não há nada que mais atrapalhe num dia de chuva do que um guarda-chuva. Aquele mesmo que deveria nos proteger é o que se aproveita de nossa fragilidade, como os policiais corruptos que aparecem no Jornal Nacional e no Força Tarefa. Nunca se sabe onde deixar ou onde se deixou um guarda-chuva fechado; aberto, ele nunca cobre o suficiente, não passa nas portas, anda sempre batendo em outros guarda-chuvas, querendo provar que é o macho alfa da espécie; está constantemente quebrado e algumas vezes simplesmente bate suas asas de morcego no vento deixando seu antigo dono com cara de "mas o que foi que eu fiz". Criaturas cruéis, os guarda-chuvas.
Enquanto eu me espremia para caber embaixo da parada, o sujeito chegou com seu enorme guarda-chuva de oncinha. Como não encontrou espaço para se recolher, a oncinha ficou lá, tomando chuva no couro, bem ao meu lado, apontando para o céu e espalhando seus imensos tentáculos de onça-polvo. Se não fosse uma oncinha, eu estaria com medo. E os instantes seguintes me provaram que era mesmo pra estar. Em poucos segundos, a onça-polvo começou a se mexer, a girar, a ameaçar os meus olhos com aquelas unhas de metal, enquanto o Tarzan que a dominava procurava a passagem de ônibus dentro da carteira que arrancara da pasta, violentamente como se brigasse com uma boneca russa. E, pra piorar, ainda tentava segurar uma revista entre as pernas. Meu único olho, que o outro se protegia com a mão, não via o seu rosto; só as mãos agitadas, a revista presa entre os joelhos e o imenso guarda-chuva cobrindo até os ombros como aqueles chapéus chineses. Eu imaginava que estranho contratempo tinha feito o sujeito se prover de um artefato singular como aquele; que revista espremia entre as pernas – afinal o que leria um indivíduo que usa um guarda-chuva de oncinha? -; mas o que me pôs mesmo um átomo a mais no cérebro foi querer saber como fazia para segurar tanta coisa ao mesmo tempo.
E por que cargas d'água celestes isso me dizia respeito? Ora, eu deveria me desculpar pelos olhares indiscretos. Bem, acho que não. Interessar-se pelos outros é simplesmente uma forma de aprendermos com a experiência alheia, além de, é claro, darmos boas risadas. O curioso não é que a vida dos outros nos interesse; é que na nossa época essa curiosidade seja tão agressiva que tenhamos que discuti-la, problematizá-la, elevá-la à condição de assunto importante. Nosso tempo é o da superexposição de indivíduos transformados puramente em imagens, que não nos oferecem nenhum contato com uma verdadeira experiência de vida e que, provocando uma ânsia de consumo, nos fazem, ao mesmo tempo, atraídos e culpados, desejosos e arrependidos de nosso desejo.
Quando espiamos os outros, tentamos encontrar a nós mesmos. Não é natural que um apaixonado por livros se interesse pelo que outras pessoas leem? Até que o outro perde a importância, e só nos resta dele a impressão que guardamos: simpatia, complacência, concordância, repulsa, ódio, horror... Por isso, quando falamos sobre os outros, não é da vida deles que tratamos, mas só daquilo neles que, de alguma forma, nos diz respeito. Mas quando a televisão e as revistas de fofocas nos lançam moedas falsas como se fossem os dobrões de ouro do rei, é necessário que algo de nossa humanidade se revolte.










Enquanto eu pensava nisso, desapareceram guarda-chuva, revista e até as bonecas russas. Sumiram sem eu notar, de tal modo estava absorto em minhas reflexões, em meu trabalho, na forma que daria a este texto, que já começava a nascer na minha cabeça. Em suma, estava concentrado em mim, na minha vida e nas pequenas coisas que fazem parte dela. E assim, também, cada pessoa, conforme seu discernimento, escolhe as referências que tenham consigo alguma relação: doze ou quinze pessoas trancadas numa casa sem fazer nada, atrizes fotochopadas nas fotografias ou algum personagem, mesmo ficcional, que tenha atravessado séculos e fronteiras. Ou ainda, é claro, pessoas de verdade, que também podem ser bem interessantes e originais; muito mais do que as imagens vazias construídas para o consumo e a admiração, que não nos ajudam nem a conviver com os outros nem conosco mesmos. Nem ensinam a segurar pasta, carteira, revista e ainda ostentar um guarda-chuva de oncinha, tudo ao mesmo tempo e debaixo de chuva.

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Artista Esperança - Douglas Ceccagno - 05/08/2010 18:06